sábado, 14 de junho de 2008

A EVOLUÇÃO DA TERRA

· Estrutura interna da Terra
A estrutura interna da Terra é composta de:
- Litosfera (50 a 60 km de espessura).
- Manto (4.600 km de espessura).
- Núcleo (1.700 km de espessura).
A Terra é constituída por camadas concêntricas e de diferentes materiais. O conhecimento de seu interior é a chave para compreender a natureza do planeta e, dessa forma, valorizar as forças que operam ali ou na sua superfície.
A crosta terrestre ou litosfera, forma a camada externa da Terra, dividindo-se em duas subcamadas: sial e sima. O sial, na parte mais externa da crosta terrestre, é rico em silício e alumínio, sua temperatura aumenta conforme a profundidade. O sima, na porção inferior, além dos minerais silício e magnésio, apresenta rochas basálticas.
O manto é a camada de transição de grande importância. Nele se produzem correntes de materiais que ascendem à crosta terrestre. Essas correntes são responsáveis por fenômenos como a formação das montanhas, dos vulcões e movimentos continentais.
A sismologia admite que, numa certa camada do manto (entre 100 e 350 km de profundidade), existe uma massa plástica de minerais capaz de se deslocar em estado líquido, a astenosfera, sobre a qual se assentam as placas tectônicas.
O núcleo, rico em ferro, níquel e minerais de alta densidade (nife), possui temperaturas acima de 6.000ºC.

· Eras geológicas
A Terra tem a idade geológica calculada entre 4,5 e 5 bilhões de anos. A geologia, ciência que se dedica ao estudo do planeta, divide a idade geológica em eras, épocas, períodos, idades e fases. Durante esse tempo, o planeta vem sofrendo inúmeras transformações. Os geólogos utilizam-se de rochas e fósseis para estabelecer uma divisão cronológica da evolução terrestre.

· Teoria da deriva continental
Denominada também de teoria da translação dos continentes ou de Wegener (1880-1930), a teoria da deriva continental afirma que continentes ou terras emersas flutuam sobre o magma ou astenosfera, da mesma forma que a madeira e o gelo flutuam na água.
Como elementos comprobatórios de sua teoria, Wegener citou:
- a coincidência entre a linha de recorte do litoral oeste africano e do leste da América do Sul, mostrando que esses recortes se encaixam como peças de um quebra-cabeças;
- concordância entre estratos rochosos dos litorais da África e do Brasil;
- semelhança de flora e fauna, que não poderiam existir caso os continentes ou as terras emersas sempre tivessem sido como nos dias atuais.
Wegener partiu da existência, há cerca de 220 milhões de anos (era Paleozóica), de um supercontinente a que deu o nome de Pangéia e de um só imenso oceano, Pantalassa.
A Pangéia teria sido dividida por um longo braço de mar, em virtude de forças internas da Terra, dando origem a duas grandes massas continentais: Gondwana e Laurásia.
Gondwana ao sul, abrangeria as atuais áreas da América do Sul, Índia, África, Nova Zelândia, Austrália, Antártida, Madagascar, além do Sri Lanka. Laurásia, ao norte, incluiria as da América do Norte, Groenlândia, Ásia e Europa.
A cerca de 65 milhões de anos (final da era Mesozóica e início da Cenozóica), a América do Sul teria começado a separar-se da África, ampliando o oceano Atlântico. O deslocamento para o oeste das terras que hoje formam as Américas ocasionou uma grande pressão sobre as rochas, comprimindo-as e desdobrando-as, dando origem à cordilheira dos Andes na América do Sul, e as montanhas Rochosas da América do Norte. O deslocamento da África e da ilha que hoje corresponde a Índia, para o norte, deu origem as cadeias montanhosas da Europa (Alpes e Pirineus), e da Ásia (Cárpatos, Caucáso e Himalaia).
Finalmente, na era cenozóica, os continentes e oceanos assumiram a configuração atual, mas os deslocamentos continuam.
Alfred Wegener não conseguiu explicar, em sua teoria, como os continentes poderiam deslocar-se. No entanto, a teoria ganhou consistência nos anos de 1950, quando a geofísica, por meio de modernas técnicas de pesquisas, comprovou pela teoria das placas tectônicas ou da tectônica de placas que os continentes se movimentam sobre o magma.

· Teoria da tectônica de placas
O pesquisador Jason Morgan, da Universidade de Princeton (EUA), no ano de 1967, formulou a teoria da tectônica de placas usando conhecimentos desenvolvidos por outros pesquisadores. Um deles, Harry Hammond Hess, geofísico norte-americano, propôs a teoria do leito oceânico, além de ter descoberto os guyot - montes submarinos cujos cumes achatados teriam sido erodidos quando se encontravam acima da superfície das águas. A submersão desses montes teria ocorrido pelo deslocamento da crosta oceânica abaixo deles.
De acordo com a teoria da tectônica de placas, a litosfera é um envoltório não-contínuo dividido em partes que se apoiam ou flutuam sobre a astenosfera. Identificaram-se oito placas principais, de maior extensão, e seis secundárias de menor extensão. Na parte superior dessas placas, firmemente incrustadas em rochas densas, estão os continentes e terras emersas e as bacias oceânicas.
Em razão dos movimentos tectônicos, a placa Sul-americana afasta-se da Africana a velocidade de 2 cm por ano; a de Nazca mergulha por baixo da Sul-americana 10 cm por ano; as de Scotia e do Caribe não são atingidas diretamente pelo deslocamento da Sul-americana, que passa muito próxima a elas. Verifica-se também um afastamento entre a África e a Ásia, na região da península arábica, com a tendência do mar Vermelho aumentar de largura, originando um oceano. Além disso, as zonas sísmicas ou de terremotos e de vulcanismo encontram-se na faixa de contato entre as placas que são áreas de instabilidade geológica.

· Rochas
As rochas são associações de partículas de minerais, isto é, substâncias inorgânicas com uma composição química determinada, constituída de elementos que aparecem naturalmente na crosta terrestre.
Elas classificam-se em simples e compostas: rocha simples é formada por um só tipo de mineral; a composta, por várias espécies de minerais.
As rochas conforme a origem, são: magmáticas ou ígneas, sedimentares ou estratificadas; e metamórficas.

a) Rochas magmáticas ou ígneas
Constituem a base dos continentes. Elas originam-se do magma pastoso ou líquido que é pressionado para a superfície terrestre, em razão das elevadas temperaturas. Caso se esfrie antes de alcançar a superfície, ou seja, solidifique-se no interior da Terra, o magma originará minerais cristalizados, como o granito - rocha ígnea intrusiva ou plutônica, que se consolida nas partes profundas da litosfera. Se atingir a superfície terrestre, por meio de vulcões ou das dorsais submarinas, causará rochas ígneas extrusivas ou vulcânicas, formadas pela solidificação do material das erupções vulcânicas, sendo o basalto a mais comum.

b) Rochas sedimentares ou estratificadas
São as mais abundantes na superfície terrestre e sua formação provem do acúmulo de partículas de origem mineral, animal ou vegetal, segundo o processo de sedimentação que as diferenciam.
- Detríticas: estão expostas de forma permanente ao desgaste e a destruição, por efeito das chuvas, geleiras, rios, mares e ventos que transportam seus sedimentos para outros lugares. São rochas detríticas: arenito e saltito.
- Químicas: originam-se da evaporação das águas como o sal.
- Orgânicas: provem do acúmulo de enormes quantidades de organismos (restos de vegetais e animais), dentre eles petróleo, carvão e betume.

c) Rochas metamórficas
O nome resulta de metamorfosis, que significa trocar a forma. Essas rochas derivam das transformações ocasionadas por intenso calor e pressão sobre as rochas ígneas ou sedimentares, que modificam sua metamórfica composição mineral. Quando o magma atinge a crosta terrestre, suas rochas, em contato com as novas condições de temperatura ou pressão, modificam-se: o calcário transforma-se em mármore, o arenito em quartzito.

· Principais estruturas geológicas da Terra
A crosta terrestre compõem-se essencialmente de rochas. Em razão das grandes transformações no planeta, a disposição dessas rochas determinou três tipos diferentes de formação: escudos antigos ou maciços cristalinos, bacias sedimentares, e dobramentos modernos.

Escudos antigos ou maciços cristalinos
São blocos imensos constituídos de rochas cristalinas do tipo magmático-plutônicas, que foram as primeiras na crosta terrestre, formadas na era pré-cambriana, ou de rochas metamórficas, que são extensões resistentes, estáveis, bastante desgastadas e geralmente associadas à ocorrência de minerais metálicos, originadas de material sedimentar paleozóico.
No Brasil, esses escudos ou maciços correspondem a 36% da área total e dividem-se em duas grandes porções: Escudo das Guianas, ao norte da planície Amazônica, e Escudo Brasileiro, na parte centro-oriental, cuja grande extensão permite classifica-lo em outros escudos e núcleos.
Os escudos formaram-se durante os períodos Arqueano e Algonquiano.

Bacias sedimentares
São depressões relativas, ou seja, planos mais baixos encontrados nos escudos, preenchidas por detritos ou sedimentos das áreas próximas. Esse processo de deposição sedimentar surgiu nas eras Paleozóica, Mesozóica e Cenozóica e ainda continua. As bacias sedimentares estão associadas à presença de combustíveis fósseis - petróleo, carvão, xisto e gás natural.
No Brasil, elas correspondem a 64% do território nacional e constituem grandes bacias: a Amazônica, a do Meio-norte, a do Paraná, a São-Franciscana e a do Pantanal Mato-Grossense; ou pequenas bacias, geralmente alojadas em compartimentos de planaltos, como as do Recôncavo Baiano, de Curitiba, Taubaté, Resende e São Paulo.

Dobramentos modernos
São grandes estruturas formadas por rochas magmáticas e sedimentares pouco resistentes. Forças tectônicas vigorosas, durante o período Terciário da era Cenozóica, provocaram o enrugamento dessas estruturas, originando grandes cadeias montanhosas ou cordilheiras, como os Andes, as Montanhas Rochosas, os Alpes, e o Himalaia. Nessas áreas instáveis da crosta terrestre, são freqüentes os terremotos e as atividades vulcânicas. Não estão presentes no território brasileiro.

· Solos
O estudo do solo é fundamental para o desenvolvimento da agricultura, pois dele os vegetais retiram os nutrientes necessários para o desenvolvimento. Todos os seres vivos sobrevivem dos recursos encontrados e desenvolvidos no solo, por isso os estudiosos preocupam-se em desenvolver técnicas inovadoras para aproveitá-lo melhor, sem causar sua destruição. É necessário garantir a permanência da sua fertilidade para a sobrevivência da humanidade.
O solo é a camada superficial da crosta terrestre, de espessura variável, resultante da ação do intemperismo. Nele se encontram elementos e partículas minerais, matéria orgânica, água e oxigênio.
A troca de temperatura constante (calor e frio) produz contração e dilatação das rochas, resultando em fraturas ou rachaduras que contribuem para acelerar o processo de decomposição.
Os principais tipos de solo encontrados no Brasil são: terra roxa, massapé, de cerrado, da caatinga e da Amazônia.
Possuem grande fertilidade:
- Terra roxa, resultante da decomposição da rocha magmática vulcânica - basalto -, encontrada principalmente nos estados do Paraná e São Paulo. Nessas áreas, cultivam-se café, cana de açúcar, trigo e soja.
- Massapé, solo argiloso da Zona da Mata nordestina. Origina-se da decomposição de rochas do tipo granito e calcário. Representou a base econômica do Brasil colonial, pois nele se desenvolveu o cultivo da cana de açúcar.

RELEVO TERRESTRE

· Agentes modificadores do relevo
A geomorfologia estuda o relevo. Assim, ela se relaciona intimamente com a geologia e a geografia. Enquanto a primeira fornece vários conhecimentos relativos às rochas e aos minerais, ao tectonismo, ao vulcanismo, às estruturas geológicas; a segunda fornece subsídios importantes sobre o clima e suas relações com as formas e evolução do relevo, a ocupação humana, a produção do espaço geográfico e suas conseqüências ambientais, entre outros.

- Agentes internos ou endógenos
São as forças internas do planeta, causadas pela pressão e altas temperaturas das camadas mais profundas. Geralmente essas manifestações são violentas e rápidas, como é o caso dos terremotos e vulcões. Esses movimentos são construtores e modificadores do relevo terrestre, podendo levar milhões de anos ou apenas um dia.

a) Tectonismo
Também denominado diastrofismo (distorção), caracteriza-se por movimentos lentos e prolongados que acontecem no interior da crosta terrestre, produzindo deformações nas rochas. Esses movimentos podem ocorrer na forma vertical (epirogênese) ou na horizontal (orogênese).
A epirogênese ou falhamento consiste em movimentos verticais que provocam pressão sobre as camadas rochosas resistentes e de pouca plasticidade, causando rebaixamentos ou soerguimentos da crosta continental. São movimentos lentos que não podem ser observados de forma direta, pois requerem milhares de anos para que ocorram.
A orogênese ou dobramento caracteriza-se por movimentos horizontais de grande intensidade que correspondem aos deslocamentos da crosta terrestre. Quando tais pressões são exercidas em rochas maleáveis, surgem os dobramentos, que dão origem às cordilheiras. Os Alpes e o Himalaia, dentre outras, originaram-se dos movimentos orogênicos.
b) Vulcanismo
Vulcão é uma elevação cônica terminada em cratera, formada por uma fenda na crosta terrestre, por meio da qual massas rochosas em fusão e gases procedentes do interior da Terra atingem a superfície do planeta, por um condutor ou canal denominado chaminé.
Os vulcões são comuns em zonas de encontro das placas tectônicas. Existem, no planeta, duas áreas onde se concentram: uma é a região do Círculo de Fogo do Pacífico (da Cordilheira dos Andes às Filipinas); a outra, o Círculo de Fogo do Atlântico (da América Central, passando pelas Antilhas, até Açores e Cabo Verde).
Quando um vulcão entra em erupção, ele expele lavas, gases e material piroclástico. Lava é a massa de rocha fundida à temperatura média de 600 a 1000ºC. A emissão de gases é uma forma encontrada pela natureza para aliviar as fortes pressões internas. O material piroclástico compõem-se de fragmentos de rochas lançados a centenas de metros de altura. Principais tipos:
- Cinzas: de aspecto arenoso, podem permanecer suspensas na atmosfera por longo tempo. Ao depositarem-se sobre a superfície terrestre, tornam o solo muito fértil.
- Lapílis: fragmentos de lava que podem chegar à superfície na forma sólida ou pastosa.
- Bombas vulcânicas: grandes blocos de lava que solidificam no ar.

c) Abalos sísmicos
São movimentos vibratórios provocados pelos desmoronamentos internos da crosta terrestre e propagam-se em todas as direções em forma de ondas sísmicas, que chegam à superfície e podem ser registradas pelos sismógrafos.
Nos últimos anos, os cientistas voltaram sua atenção para localidades assoladas por terremotos que causaram grandes danos materiais, além de numerosas vítimas. Terremotos ou sismos são catástrofes naturais ante as quais não se tem defesa ou proteção.
O ponto do interior da Terra onde se origina o terremoto denomina-se hipocentro ou foco, e o ponto na superfície terrestre onde ele alcança maior intensidade, epicentro.
Se o epicentro estiver no fundo do mar, forma-se um tsunami, nome japonês dado às ondas gigantescas (maremotos), que chegam a atingir 30 metros de altura, propagando-se a grandes velocidades e arrasando zonas litorâneas. Esses fenômenos são freqüentes na costa asiática do Pacífico.
No decorrer de um ano, registram-se milhões de abalos sísmicos; aproximadamente 5.000 são percebidos pelo homem. Os efeitos dos tremores são variados: abrem fraturas no solo, desviam as correntezas dos rios, destroem parcial ou totalmente cidades, contorcem as vias férreas. No entanto, o efeito mais terrível é a perda de vidas humanas.
No Brasil os terremotos são raros em razão de o país estar localizado no centro de uma grande placa tectônica e os abalos ocorrerem nos limites das placas.
A intensidade de um terremoto é medida por uma escala numérica crescente. A mais utilizada é a escala de Richter, com graus de intensidade que variam de 1 a 9. Do ponto de vista científico, um ponto na escala Richter é imperceptível, não causando danos nem é sentido, entretanto a intensidade de 9 graus pode provocar uma catástrofe sem precedentes.
- Agentes externos ou exógenos
Existem agentes externos, na superfície terrestre, que modificam o relevo, não tão rapidamente como os vulcões ou terremotos, mas sua ação contínua transforma lenta e ininterruptamente todas as paisagens da Terra. A ação dos ventos, do intemperismo e da água sobre a crosta terrestre determinam a erosão.
A intensidade da erosão é determinada pela resistência das rochas e pela ação e energia do agente erosivo. Assim, por exemplo, certas regiões desérticas são submetidas a enormes diferenças de temperatura. Durante o dia ela chega a alcançar mais de 40ºC e à noite, devido à perda de calor, menos de 0ºC. Essas mudanças bruscas produzem finas aberturas nas rochas, que pouco a pouco, dividem-se em partes e destroem-se.
O vento é outro agente de erosão. Sua ação engloba três fases: a de desgaste da rocha (erosão), determinando curiosas formas nas paisagens; a de transporte de materiais resultantes dessa erosão e, por fim, a deposição desses sedimentos, dando origem a outra forma de relevo.
A água, em seus estados líquido e sólido, atua sobre o relevo. As águas da chuva e do degelo, ao deslizarem pelo solo, assumem grande importância ao transformarem-se em rios torrenciais.
A ação erosiva de um rio é extremamente destrutiva em seu curso superior, pois aí se encontram os maiores declives. O desgaste diminui à medida que se vai aproximando das planícies.
O mar também atua como grande agente do relevo, na formação de praias ou no desgaste de encostas, que no Brasil são conhecidas como falésias.
Mas, sem sombra de dúvidas, o agente externo que mais tem transformado o relevo tem sido o homem, através de grandes obras, da mineração, da urbanização, dentre outros fatores. O que a natureza levou bilhões de anos para formar o homem leva anos ou menos para modificar ou mesmo destruir.

· Formas de relevo
As formas de relevo na superfície terrestre são muito variadas, no entanto destacamos quatro principais: planície, planalto, depressão e montanha.

a) Planície
Relevo plano, de pouco declive e altura, a planície corresponde a uma bacia de sedimentação que se acumulou no passado, e continua se acumulando pelos depósitos sedimentares deixados pelos rios, mares e ventos. Essa forma de relevo é encontrada ao longo dos rios, e próximo a lagos e mares, onde o trabalho de erosão é mais intenso. Sua altitude aproximada é de 0 a 200 m acima do nível do mar. A planície é o tipo de relevo preferido pelo homem para viver - 96% da população da Terra habitam regiões planas.

b) Planalto
O planalto apresenta relevo de altitudes elevadas, superfície quase plana e altura variada, onde o processo de erosão supera o de sedimentação. Pode surgir entre cadeias montanhosas. Para essa forma de relevo, geralmente se considera um mínimo de 500 m de altitude. As bordas dos planaltos podem apresentar-se sob forma de paredões abruptos (escarpas) ou rampas suaves. No Brasil, os planaltos têm altura modesta.
Muitas culturas, como as dos incas e astecas, se desenvolveram em planaltos. Nas zonas tropicais e equatoriais, o homem busca esse tipo de relevo para sua moradia, pois ali encontra boas condições climáticas determinadas pela altura. São bons exemplos a Cidade do México, a 2.276m, e Quito (Equador), a 2.800m de altitude.
c) Montanha
É uma grande elevação da crosta terrestre. Semelhante a um cone. Montanhas em série formam cadeias ou cordilheiras. As maiores cordilheiras são as dos Andes e do Himalaia. Por sua formação geológica recente, apresentam alturas elevadas e cumes pontiagudos.
As montanhas sempre despertaram o espírito ousado e curioso do homem, que tentou conquistá-las, muitas vezes com esforços sobre humanos. A conquista do Everest, a mais alta montanha da cadeia do Himalaia, com 8.848m de altitude, foi conseguida, pela primeira vez, por Sir Edmund Hillary, 1953.

d) Depressão
Relevo situado abaixo do nível do mar ou de terras circundantes. As depressões podem ser relativas ou absolutas. Consideram-se depressões absolutas as áreas continentais abaixo do nível do mar. As relativas encontram-se acima do nível do mar, porém a uma altura inferior à da superfície vizinha.

GEOGRAFIA E UNIVERSO

Do que trata a geografia? Qual seu objeto de estudo? Já houve quem dissesse que a geografia é a história do presente. Não é simplesmente isso. Claro que há semelhanças entre geografia e história. São duas ciências que tratam do homem: a primeira enfatiza a relação com o espaço e a segunda, com o tempo.
É no espaço geográfico que o homem constrói suas complexas relações, convivendo com a natureza e modificando-a. Dessa forma, o espaço geográfico pode ser natural ou humanizado.
A preocupação maior da geografia é entender o homem, seu relacionamento com a natureza e com os outros homens; de que forma cada sociedade humana estrutura e organiza seu espaço e a integração com outras sociedades, promovendo trocas culturais e econômicas.
Assim, a geografia trata de estruturas socioeconômicas, relações entre trabalhadores, formas de produção e de desenvolvimento tecnológico.
Nessa teia de relações, a geografia se coloca como forma de saber privilegiado sobre a realidade, procurando entende-la e propondo alternativas para diminuir ou eliminar desigualdades regionais, sociais, impactos ambientais, criando justiça social e aproveitamento racional no uso dos recursos naturais.

UNIVERSO
· Origem do universo
Antes da teoria da relatividade concebia-se um universo estático e imutável. Inspirado na teoria de Einstein, George Gamow elaborou a teoria do Big Bang (grande explosão), apresentada ao mundo em 1948.
Segundo essa teoria, o universo surgiu de uma explosão, entre 15 e 20 bilhões de anos atrás. Teve origem em gigantescas concentrações de energia, gerando uma expansão que dura até hoje.

· Galáxias
São regiões do universo onde se aglomeram planetas, estrelas, gases, etc. Todos esses elementos giram em torno de um mesmo centro. Os cálculos atuais indicam a existência de aproximadamente 100 bilhões de galáxias que, juntas, forma o universo. As mais famosas são: Via Láctea, onde está localizado o Sistema Solar, e Andrômeda. Ambas são visíveis a olho nu.

· Astros
São corpos que giram no espaço, classificados de acordo com a luminosidade.
Iluminados ou opacos: não possuem luz própria, recebendo luz das estrelas. São os planetas, asteróides, satélites naturais, etc.
Luminosos: são geradores da própria luz e do calor, como as estrelas.

· Constelações
São agrupamentos fictícios de estrelas definidos pelos seres humanos desde a antiguidade. Portanto não são agrupamentos naturalmente definidos, mas criados pelos homens.

· Estrelas
São corpos celestes de forma esférica que irradiam luz e calor. São formados por dois gases principais: hidrogênio e hélio, que entram em reação nuclear.
É possível classificar as estrelas de acordo com seu brilho, que indica também sua idade.

· Sistema solar
O sistema solar é composto por nove planetas que giram ao redor do Sol, além de asteróides, meteoros, cometas e satélites naturais. O Sol desloca-se em direção a lugar não identificado do espaço, levando consigo todo o Sistema Solar.
O Sol é uma estrela de Quinta grandeza e média idade (aproximadamente 5 bilhões de anos). Essencial para a vida no planeta Terra, emite radiação na forma de calor, parte dela visível na forma de luz.
O Sol é composto de hidrogênio e hélio. No centro, o hidrogênio está constantemente sendo transformado em hélio. Uma reação nuclear libera a energia que se dirige para a superfície do Sol e, depois, para o espaço, na forma de radiação.
O heliocentrismo, teoria que sustenta ser o Sol o centro do Universo, concebe que todos os astros, inclusive as estrelas, giram em torno do Sol, hipótese lançada por Aristóteles, no século V a.C., apresentada pela primeira vez pelo grego Aristarco de Samos (310-230 a.C.).
Essa idéia foi posteriormente ignorada na idade média. O dogmatismo da Igreja medieval era tão forte que temia qualquer hipótese ou estudo científico que questionasse a visão bíblica da criação, expressa no Gênesis. Os pensadores medievais aceitavam apenas a doutrina apresentada por Cláudio Ptolomeu na obra Almagesto, pela qual a Terra era o centro do Universo (Geocentrismo) e demonstrava, com razoável precisão, a posição dos planetas visíveis a olho nu. Quatorze séculos depois, o padre Nicolau Copérnico rejeitou o sistema ptolomaico, relançando o heliocentrismo.
· Lua: nosso satélite natural
Com volume 49 vezes menor que nosso planeta, não pode reter atmosfera nem água. Sua força gravitacional corresponde a 1/6 da gravidade da Terra.
É o astro mais próximo da Terra: em média 384 mil quilômetros.
A Lua é um astro iluminado. Assim, a luminosidade que vemos da Terra é a reflexão da luz do Sol. O potencial de reflexão, denominado albedo, é de 7%.

· Movimentos da Lua
- Rotação: realiza-se em torno do próprio eixo, com duração de 27 dias, 7 horas e 43 minutos.
- Translação: realiza-se ao redor da Terra em 27 dias, 7 horas e 43 minutos.
- Revolução: movimento que a Lua realiza acompanhando a Terra ao redor do Sol, no período de um ano.
A perfeita sincronia entre os movimentos de rotação e translação faz a Lua apresentar sempre a mesma face voltada para a Terra.

· Fases da Lua
De acordo com o movimento de translação da Lua, a face voltada para a Terra é iluminada pelo Sol de diferentes formas.
- Lua nova: posição de conjunção. Não é possível observá-la porque se encontra entre o Sol e a Terra.
- Lua quarto crescente: posição de primeira quadratura. Teoricamente, uma quarta parte de sua superfície pode ser observada, das 12 horas até meia noite.
- Lua cheia: posição de oposição. Observa-se metade de sua superfície iluminada entre 18 horas e 6 horas.
- Lua quarto minguante: posição de segunda quadratura. É possível observá-la da meia-noite até o meio-dia, em teoria.

· Eclipses
Os eclipses acontecem quando Lua, Sol e Terra estão alinhados. Assim, os astros podem provocar eclipses somente em duas fases da Lua: Lua nova (conjunção) e Lua cheia (oposição).
Quando os três astros estão alinhados num mesmo plano da órbita, um deles pode ser oculto por outro, total ou parcialmente. O astro oculto pode ser o Sol (eclipse solar) ou a Lua (eclipse lunar).
- Eclipse solar: ocorre quando a Lua se encontra entre a Terra e o Sol (conjunção). A Lua projeta um cone de sombra sobre a Terra.
- Eclipse lunar: ocorre quando a Terra se encontra entre o Sol e a Lua (oposição). A terra projeta sua sombra na Lua impedindo que ela reflita a luz do Sol.

· Marés
Os movimentos da Lua e da Terra, bem como a força gravitacional, exercem influência sobre as águas do planeta. O oceano (menos denso) é atraído pela passagem da Lua, ocasionando sua rápida subida. Esse movimento denomina-se maré. Além da atração gravitacional da Lua, também há atração do Sol.

TERRA NO ESPAÇO

· Terra
A Terra está localizada na galáxia Via Láctea, no Sistema solar. Ela é o terceiro planeta em ordem de afastamento do Sol. Apresenta obliquidade da eclíptica, ou seja, é inclinada. Possui superfície de 510 milhões de quilômetros quadrados e tem forma específica de Geóide.
A Terra executa 14 movimentos. Destes, dois são mais importantes: rotação e translação.


· Movimento de rotação
É o movimento que a Terra executa em torno de seu eixo polar, ou o tempo que gasta para girar 360º no sentido oeste-leste.
O tempo gasto para executar esse movimento, é de 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, denomina-se dia sideral.
Em decorrência do movimento de rotação, há:
- movimento aparente do Sol (MAS);
- sucessão de dias e noites;
- obliquidade dos raios solares durante o dia;
- desvio dos ventos e dos corpos em queda livre;
- horários diferenciados (fusos horários);
- pontos cardeais;
- abaulamento do Equador e achatamento do pólos.
No estudo das relações Terra - Sol, é comum o período de 24 horas corresponder a uma rotação completa - dia civil. A velocidade da rotação da Terra no Equador é de 1.666km/h ou 27,76km/min. A linha do Equador é a circunferência máxima do planeta, com uma extensão de 40 mil quilômetros. Quanto mais próximo dos pólos, menor a velocidade de rotação, chegando a ser nula nos pólos.

· Movimento de translação
É o movimento da Terra em torno do Sol, realizando, em órbita elíptica, um percurso de 930 milhões de quilômetros, com duração de um ano solar ou 365 dias, 5h 48m 9s, arredondada para 365 dias e 6 horas. Na prática se usa o ano civil – 365 dias. Por isso, a cada 4 anos se acrescenta um dia ao ano, constituindo-se o ano bissexto – 366 dias.
A forma da órbita do movimento de translação é uma elipse, na qual o Sol ocupa um dos focos.
Dessa forma, a Terra ora se afasta do Sol, ora se aproxima. O afastamento máximo, afélio (aproximadamente 152 milhões de quilômetros), ocorre em 4 de julho. O dia 3 de janeiro é o período em que a Terra mais se aproxima do Sol (cerca de 147 milhões de quilômetros) periélio.

· Estações do ano
No dia 21 de dezembro, o hemisfério sul recebe os raios solares quase perpendicularmente ao Trópico de Capricórnio, ocasionando o solstício de verão no hemisfério sul e o solstício de inverno no hemisfério norte.
Em 21 de junho, o hemisfério norte é que recebe os raios solares perpendiculares ao Trópico de Câncer, havendo solstício de verão nesse hemisfério e de inverno no sul.
Nos dias 21 de março e 23 de setembro, os raios solares incidem perpendicularmente na região do Equador, provocando os equinócios de primavera e outono.
Os trópicos de Câncer e Capricórnio marcam o movimento aparente do Sol na esfera celeste. Assim, localidades ao sul de Capricórnio e ao norte de Câncer jamais recebem luz solar perpendicularmente.

MEIOS DE ORIENTAÇÃO
Uma forma de orientação comum é a bússola. Ela aponta uma agulha imantada para o pólo norte magnético.
Pela constância no movimento de rotação da Terra (sempre de oeste para leste), foi possível obter a rosa dos ventos.
Colocando o braço direito para o leste (onde nasce o Sol) e o esquerdo para o oeste (onde o Sol se põem), uma pessoa fica de frente para o norte e de costas para o sul. Além dos quatro pontos cardeais, existem os pontos colaterais e subcolaterais, mais usados na navegação aérea e marinha.

· Coordenadas geográficas
Segundo estudos recentes, a Terra possui forma de Geóide, ou seja, forma própria da Terra. Isso se deve ao achatamento dos pólos e abaulamento da região equatorial. Para facilitar o trabalho na cartografia, essas imperfeições são consideradas.
A cartografia criou um sistema de linhas imaginárias que servem de base para a localização de qualquer ponto da Terra. Essas linhas são os paralelos e meridianos.

a) Paralelos: os paralelos são linhas imaginárias que cortam a Terra paralelamente a Linha do Equador. Eles são em número de 180, metade para o norte e a outra metade para o sul. A partir dos paralelos é possível determinar as latitudes.


b) Meridianos: os meridianos são linhas imaginárias que cortam a Terra passando pelos pólos (o principal meridiano é o de Greenwich). Eles são em número de 360, metade para o oeste e a outra metade para o leste. A partir dos meridianos é possível determinar as longitudes.

· Sistema de zona de horas (Fusos horários)
Inicialmente a Inglaterra padronizou a hora em suas fronteiras e estendeu essa medida para o mundo ainda no século XIX. Em 1884, representantes de 25 países, entre eles o Brasil, reuniram-se em Washington para Conferência Internacional do Meridiano. Ficou estabelecido que o meridiano de origem do mundo, o de longitude 0º, seria aquele que passa pelo observatório de Greenwich, nas redondezas de Londres. Além disso, o tempo universal seria o tempo médio de Greenwich (GMT).
Estabelecidas essas duas referências, criou-se um sistema de zonas de horas por todo o mundo.
Cada faixa ou fuso horário possui uma largura de 15º de longitude ou 15 meridianos. Esse valor foi obtido levando-se em conta que a Terra gira 360º em 24 horas. A cada hora, nosso planeta gira 15º, consequentemente, uma nova faixa ou fuso passa a ser iluminada pelo Sol, e outra não. Além disso, é possível concluir que se a cada 15º temos uma hora, a cada 1º temos 4 minutos.
É importante recordar que a Terra gira de oeste para leste. Todas as localidades situadas no leste vêem o Sol nascer primeiro. Daí, concluiu-se que elas possuem a hora adiantada. O Japão, 12 fusos a leste do Brasil, vê o nascer do Sol antes, o que significa que os japoneses sempre estão "adiantados" no tempo. De posse desses conhecimentos e da longitude de um lugar ou do fuso onde se situa, é possível determinar a hora local.

· Cálculo de horas
Para se resolver problemas relativos a fusos horários, procede-se da seguinte forma:

1. Determina-se a distância longitudinal (D.L.) entre dois lugares, ou seja, a cidade de que se conhece a hora e aquela de que se quer determinar a hora.

D.L .= Le (maior) + ou - Le (menor)

- Se estiverem no mesmo hemisfério, diminui-se a menor longitude da maior.
- Se estiverem em hemisférios diferentes, somam-se as longitudes.

2. O resultado da adição ou subtração, ou seja, a distância longitudinal encontrada é dividida por 15º ou multiplicada por 4 minutos para se saber a diferença horária (D.H.) entre os pontos.

D.H. = D.L. x 4 minutos ou D.L. / 15º

3. A hora verdadeira (H.V.) do ponto pedido é obtida através da subtração ou soma da hora do ponto pedido (H.D. – hora dada) com a diferença horária encontrada (D.H.).

H.V. = H.D. + ou - D.H.

- Somar se o ponto pedido estiver à leste do ponto dado.
- Subtrair se o ponto pedido estiver à oeste do ponto dado.

TEXTO DE APOIO

O lugar onde o calendário muda
Imagine que você resolva fazer uma viagem diferente no fim do ano: uma travessia pelo oceano Pacífico, a bordo de um Transatlântico. Uma noite, no final do jantar, quando o navio está em mar aberto, o capitão anuncia: “Atenção, senhoras e senhores! É exatamente meia-noite de 30 de dezembro. Mas temos de levantar um brinde pelo reveillon já, porque a partir de agora entramos no dia 1º de janeiro”.
Como é possível passar por cima do dia 31? Os passageiros ficam intrigados. O que existe de diferente nesse pedaço do mundo? É como se, ali, num ponto qualquer, perdido em pleno mar, o tempo sofresse uma descontinuidade, e o dia pulasse, de repente, de 30 de dezembro para 1º de janeiro. O mais estranho de tudo é que a hora continua a mesma: meia noite. Você saberia resolver esse enigma?
É que, exatamente a meia noite de 30 de dezembro, o navio cruzava a Linha Internacional da Data. Essa linha corta o globo terrestre do pólo norte ao pólo sul, seguindo mais ou menos o meridiano de 180º, do lado oposto ao meridiano de Greenwich, na Inglaterra. A partir de Greenwich são acertados os relógios de todo o mundo, pelos fusos horários. A leste dele, adianta-se uma hora, a cada 15 graus.
Só que quando de chega a Linha Internacional da Data, muda-se não o relógio, mas a folhinha: a leste dela, voltamos 24 horas no tempo. Ou seja, quem atravessa essa linha de oeste para leste volta de hoje para ontem. Por quê? Para acertar as contas do calendário.
Veja a seguir o problema que teríamos, por exemplo, se apenas contássemos as horas, a cada fuso horário.
Suponha que é meia noite do dia 30 de dezembro e você está em São Paulo (desconsidere o horário de verão). Se ligar para uma outra cidade, mais a leste, digamos a Cidade do Cabo, na África do Sul, vai ver que lá serão 4 horas da manhã do dia 31 de dezembro, porque a cidade fica cinco fusos horários a leste. Quanto mais a leste você ligar, mais tarde será. No Japão já será meio dia, e, no Havaí, 6 horas da tarde. Seguindo o mesmo raciocínio, no Peru seriam 23 horas, também do último dia do ano. Se continuasse nesse andamento, ao completar a volta ao mundo, você chegaria a conclusão de que seu vizinho do oeste já está na meia noite do dia 31. Mas você continuaria no dia 30.
Para assinalar uma única data, é preciso fazer um acerto em algum ponto. Então, por convenção, diminuiu-se um dia quando se passa pela Linha Internacional da Data, de oeste para leste. Para evitar problemas no dia-a-dia das pessoas, a Linha Internacional da Data não segue exatamente ao meridiano de 180º. Ela faz algumas curvas, desviando-se de ilhas e regiões em terra firme onde possam existir comunidades.
Veja o exemplo da confusão que reinaria numa cidade que fosse cortada pela Linha Internacional da Data. No caso de inflação alta, o cliente de um banco poderia ganhar um bom dinheiro apenas atravessando a rua. Bastaria fazer um depósito na agência bancária do lado leste da cidade e retirar o dinheiro imediatamente em outra agência, do lado oeste. Ele lucraria os juros de um dia em poucos minutos. E tem mais: os compromissos teriam de ser marcados levando em conta de que lado da cidade cada pessoa mora. Ou seja, todos teriam de manipular duas agendas.

Revista Superinteressante, Novembro de 1995.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Desmatamento cresce, mas governo cede ao agronegócio

Dados relativos a abril mostram que pelo menos 1.123 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos. Mais uma vez, Mato Grosso é o campeão, mas o governador Blairo Maggi lidera a resistência às medidas do governo federal para reverter o desmatamento.
Maurício Thuswohl
RIO DE JANEIRO – Divulgados na segunda-feira (2) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os números do desmatamento da Amazônia relativos a abril prometem endurecer a disputa entre o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e setores do agronegócio em torno das políticas governamentais de sanção econômica aos proprietários rurais provocadores da devastação. Segundo o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), baseado em informações passadas por satélites, foram desmatados em abril pelo menos 1.123 quilômetros quadrados de floresta, número assustadoramente maior do que o registrado em março (145 quilômetros quadrados) e que comprova a aceleração do ritmo da destruição que vinha sendo reduzido nos últimos três anos.A devastação na Amazônia é provavelmente ainda maior do que o detectado pelos satélites do Inpe, já que 53% da área de floresta permaneceu encoberta por nuvens durante o mês de abril. O que se sabe com certeza é que o estado do Mato Grosso é mais uma vez o campeão do desmatamento, com 794 quilômetros quadrados de floresta derrubada em abril, o equivalente a 70,8% do total detectado no período. O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, pertence à família que mais planta soja no mundo e é hoje o maior líder político do agronegócio brasileiro. Como tal, Maggi é ferrenho opositor das medidas estipuladas pelo governo federal para conter o desmatamento em seu estado, tendo promovido embates políticos públicos com a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e com o atual ministro, Carlos Minc.O números divulgados esta semana pelo Inpe mostram que o aumento do desmatamento é uma tendência consolidada. Nos doze meses compreendidos entre agosto de 2006 e julho de 2007 foram desmatados 4.974 quilômetros quadrados de floresta, enquanto que, de agosto do ano passado até abril deste ano, já foram derrubados 5.850 quilômetros quadrados. Até o fim do julho, quando termina o período de medição anual trabalhado pelo Inpe, a tendência é que o ritmo do desmatamento aumente ainda mais, pois será o período da estiagem: “A coisa pode ser muito pior do que parece. Ainda faltam os meses brabos”, admite o ministro Minc.Os dados relativos ao desmatamento de abril já estavam disponíveis há algum tempo, mas sua divulgação foi retardada por conta da mudança no comando do MMA. Antes mesmo do anúncio, no entanto, os números já eram questionados publicamente por Maggi, pois seu governo garante que o desmatamento no estado vem caindo nos últimos cinco anos: “Há dois anos, a média de desmatamento de Mato Grosso está abaixo de três mil quilômetros quadrados. É um momento histórico, no qual deveríamos ser premiados, mas estamos sendo punidos”, disse.Desde que a retomada de um ritmo acelerado de desmatamento na Amazônia foi percebida, no fim do ano passado, Maggi lidera os esforços para conter as medidas anunciadas pelo governo federal para reverter a situação. A principal delas é o corte, determinado por uma resolução do Banco Central, do acesso às linhas de crédito e financiamento público para os proprietários rurais que promovem o desmatamento. Anunciada em março pelo MMA, a medida atinge 67 municípios em Mato Grosso: “Essa resolução vai acabar com a atividade econômica em muitas cidades mato-grossenses e provocar muito desemprego”, queixou-se o governador, quando soube da novidade.Pressão surte efeitoA pressão de Maggi teve dois efeitos imediatos. O primeiro foi fazer com que dez mil grandes proprietários rurais de Mato Grosso simplesmente ignorassem o recadastramento promovido pelo Incra com o objetivo de determinar quem está atuando legalmente do ponto de vista ambiental. A postura do governador foi criticada pela ex-ministra Marina Silva: “Em vez de implementar as medidas, o governo do Mato Grosso passou a contestar os dados de crescimento do desmatamento. Os dados do ano passado já acederam a luz vermelha no governo federal, mas Maggi teve uma postura reativa e criou um clima de desobediência civil que acabou levando a um aumento ainda maior do desmatamento”.O segundo efeito da pressão liderada por Maggi, com o auxílio dos cerca de 300 deputados que compõem a bancada ruralista na Câmara, teve sabor de vitória política. Num recuo anunciado durante uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os governadores dos estados da Amazônia Legal, o governo federal resolveu “adaptar” a resolução do Banco Central, tornando passíveis de sanções econômicas apenas as propriedades localizadas dentro do bioma amazônico, e não mais aquelas localizadas no Pantanal ou no Cerrado: “Essa flexibilização beneficia 70% dos municípios de Mato Grosso”, comemorou Maggi.Numa outra medida que agradou a setores ligados ao agronegócio, o ministro Carlos Minc anunciou aos governadores dos estados amazônicos que o governo vai destinar R$ 1 bilhão de reais para a recomposição de áreas degradadas de floresta. Incluída na Medida Provisória 432, que trata da dívida agrícola, essa medida vai beneficiar economicamente quem já desmatou, mas é encarada como única saída viável pelo governo: “Vamos dar meios a todos aqueles que queiram se regularizar e recompor as áreas de reserva legal. A regularização será coletiva, e o MMA vai dar 30% dos recursos para acelerar, numa força-tarefa, a regularização ambiental daqueles que queiram realmente se regularizar”, disse Minc.Poder aos estadosO ministro anunciou também, nesta terça-feira (3), que o poder de determinar quais propriedades rurais ficarão impedidas de aceder aos financiamentos públicos caberá a cada governo estadual da Amazônia Legal. A descentralização já era prevista há algum tempo pelo governo federal, mas Minc admitiu que esse sistema é vulnerável a fraudes: “Sim, pode haver fraude. Um secretário ou um governador contrário à resolução, ou um produtor que oferece cem mil reais para dizerem que sua propriedade está fora do bioma amazônico. Mas, isso é falsidade ideológica e, se flagrado, implicará em prisão. Quem estiver errado, vai responder por crime ambiental”.O Ibama, segundo o ministro, fará um controle do trabalho de regularização implementado pelos governos estaduais, mas ele se dará por amostragem, de acordo com as possibilidades atuais do instituto: “Imagina se eu colocasse os 400 homens que o Ibama tem para cuidar da Amazônia atrás de uma mesa para receber sete mil produtores e dizer se eles estão ou não dentro do bioma? O Ibama já não tem meios de pegar os grandes madeireiros e criar as grandes reservas...”, lamentou Minc.

O papel real dos imigrantes

Em uma carta aberta sobre a "diretriz de retorno" da União Européia, o presidente da Bolívia, Evo Morales, manifesta preocupação com a política de endurecimento das condições de detenção e expulsão de imigrantes na Europa. "Os europeus sempre foram bem-vindos. Vieram ao nosso continente para explorar riquezas e para transferi-las para a Europa, com um altíssimo custo para as populações originais da América", lembra Evo.
Até o final da Segunda Guerra Mundial, a Europa foi um continente de emigrantes. Dezenas de milhões de europeus partiram rumo às Américas para colonizar, escapar da fome, das crises financeiras, das guerras ou dos totalitarismos europeus e da perseguição às minorias étnicas.Hoje, estou acompanhando com preocupação o processo da chamada "diretriz de retorno". O texto, validado no passado 5 de junho pelos ministros do Interior dos 27 países da União Européia, deve ser votado no dia 18 de junho no Parlamento Europeu. Sinto que endurece de maneira drástica as condições de detenção e expulsão aos imigrantes indocumentados, qualquer que seja seu tempo de permanência nos países europeus, sua situação laboral, seus laços familiares, sua vontade e suas tentativas de integrar-se.Os europeus chegaram massivamente aos países da América Latina e da América do Norte, sem vistos nem condições impostas pelas autoridades. Foram sempre bem-vindos. E continuam sendo, em nossos países do continente americano, que absorveram, naquela época, a miséria econômica européia e suas crises políticas. Vieram ao nosso continente para explorar riquezas e para transferi-las para a Europa, com um altíssimo custo para as populações originais da América. Como no caso do nosso Cerro Rico de Potosí e suas fabulosas minas de prata, que permitiram dar massa monetária ao continente europeu do século XVI até o século XIX. As pessoas, os bens e os direitos dos imigrantes europeus sempre foram respeitados. Hoje, a União Européia é o principal destino dos imigrantes do mundo, o que é conseqüência de sua positiva imagem de espaço de prosperidade e de liberdades públicas. A imensa maioria dos imigrantes vem para a UE para contribuir com esta prosperidade, não para aproveitar-se dela. Ocupam os empregos de obras públicas, construção, nos serviços a pessoas e hospitais, que não podem ou não querem ocupar os europeus. Contribuem para o dinamismo demográfico do continente europeu, para manter a relação entre ativos e inativos que torna possível seus generosos sistemas de seguridade social e dinamizam o mercado interno e a coesão social. Os imigrantes oferecem uma solução aos problemas demográficos e financeiros da UE.Para nós, nossos imigrantes representam a ajuda para o desenvolvimento que os Europeus não nos dão - uma vez que poucos países alcançam realmente o mínimo objetivo de 0,7% de seu PIB na ajuda para o desenvolvimento. A América Latina recebeu, em 2006, 68 bilhões de dólares em remessas, ou seja, mais do que o total dos investimentos estrangeiros em nossos países. A nível mundial, chegam a 300 bilhões de dólares, que superam os 104 bilhões concedidos como ajuda para o desenvolvimento. Meu próprio país, a Bolívia, recebeu mais de 10% do PIB em remessas (1,1 bilhões de dólares) ou um terço das nossas exportações anuais de gás natural.Ou seja, que os fluxos migratórios são benéficos tanto para os europeus e, de modo marginal, para nós, do Terceiro Mundo, uma vez que também perdemos contingentes que somam milhões da nossa mão de obra qualificada, na qual, de um modo ou de outro, nossos Estados, mesmo pobres, investiram recursos humanos e financeiros.Lamentavelmente, o projeto da "diretriz de retorno" complica terrivelmente esta realidade. Apesar de que concebemos que cada Estado ou grupo de Estados pode definir suas políticas migratórias com toda soberania, não podemos aceitar que os direitos fundamentais das pessoas sejam negados aos nossos compatriotas e irmãos latino-americanos. A "diretriz de retorno" prevê a possibilidade de prisão dos imigrantes indocumentados por até 18 meses antes de sua expulsão - ou "afastamento", segundo o termo da diretriz. 18 meses! Sem julgamento nem justiça! Tal como está hoje, o projeto de texto da diretriz viola claramente os artigos 2, 3, 5, 6, 7, 8 e 9 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Especialmente o artigo 13 da Declaração, que diz:1. Toda pessoa tem o direito de circular livremente e de escolher sua residência no território de um Estado.2. Toda pessoa tem direito de sair de qualquer país, inclusive do próprio, e de voltar para o seu país".E, o pior de tudo, existe a possibilidade de encarcerar mães de família e menores de idade, sem levar em consideração sua situação familiar ou escolar, nestes centros de internação, nos quais sabemos que ocorrem depressões, greves de fome, suicídios. Como podemos aceitar sem reagir que sejam concentrados em campos compatriotas e irmãos latino-americanos indocumentados, dos quais a imensa maioria está há anos trabalhando e se integrando? De que lado está hoje o dever de ingerência humanitária? Onde estão a "liberdade de circular", a proteção contra prisões arbitrárias?Paralelamente, a União Européia tenta convencer a Comunidade Andina de Nações (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) de que assinem um "Acordo de Associação" que inclui em seu terceiro pilar um Tratado de Livre Comércio, da mesma natureza e conteúdo que os impostos pelos Estados Unidos. Estamos sob intensa pressão da Comissão Européia para aceitar condições de profunda liberalização para o comércio, os serviços financeiros, propriedade intelectual ou nossos serviços públicos. Além disso, em nome da proteção jurídica somos pressionados pelo processo de nacionalização da água, do gás e das telecomunicações realizados no Dia Mundial dos Trabalhadores. Pergunto, nesse caso, onde está a "segurança jurídica" para nossas mulheres, adolescentes, crianças e trabalhadores que buscam melhores horizontes na Europa?Promovem a liberdade de circulação de mercadorias e finanças, enquanto vemos à frente encarceramento sem julgamento para nossos irmãos que tentaram circular livremente. Isso é negar os fundamentos da liberdade e dos direitos democráticos.Sob estas condições, caso for aprovada esta "diretriz de retorno", estaríamos na impossibilidade ética de aprofundar as negociações com a União Européia e nos reservamos o direito de adotar com os cidadãos europeus as mesmas obrigações de visto que são impostas aos Bolivianos desde primeiro de abril de 2007, segundo o princípio diplomático de reciprocidade. Não o exercemos até agora, justamente por esperar bons sinais da UE.O mundo, seus continentes, seus oceanos e seus pólos conhecem importantes dificuldades globais: o aquecimento global, a contaminação, o desaparecimento lento mas certo de recursos energéticos e biodiversidade, enquanto aumenta a fome e a pobreza em todos os países, fragilizando nossas sociedades. Fazer dos imigrantes, quer sejam documentados ou não, os bodes expiatórios destes problemas globais, não é nenhuma solução. Não corresponde a nenhuma realidade. Os problemas de coesão social que a Europa está sofrendo não são culpa dos imigrantes, mas o resultado do modelo de desenvolvimento imposto pelo Norte, que destrói o planeta e desmembra as sociedades dos homens.Em nome do povo da Bolívia, de todos os meus irmãos do continente e de regiões do mundo como o Maghreb, Ásia e os países da África, faço um chamado à consciência dos líderes e deputados europeus, dos povos, cidadãos e ativistas da Europa, para que não seja aprovado o texto da "diretriz de retorno".Tal como a conhecemos hoje, é uma diretriz da vergonha. Chamo também a União Européia a elaborar, nos próximos meses, uma política migratória respeitosa dos direitos humanos, que permita manter este dinamismo proveitoso para ambos os continentes e que possa reparar, de uma vez por todas, a tremenda dívida histórica, econômica e ecológica que os países da Europa têm com grande parte do Terceiro Mundo, que feche de uma vez as veias ainda abertas da América Latina. Não podem falhar hoje em suas "políticas de integração" como fracassaram com sua suposta "missão civilizadora" do tempo das colônias.Recebam todos vocês, autoridades, europarlamentares, companheiras e companheiros, saudações fraternas desde a Bolívia. E, especialmente, nossa solidariedade com todos os "clandestinos".
Evo Morales Ayma Presidente da República da Bolívia
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Extraído de www.agenciacartamaior.com.br

segunda-feira, 2 de junho de 2008

EUA - COLÔMBIA A lógica do terrorismo de Estado

René Báez

QUITO - O Plano Colômbia, projetado pelo governo de Andrés Pastrana e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, co-financiado pela União Européia e que entrou em vigor pela mão do democrata Bill Clinton durante sua visita a Cartagena, em agosto de 2000, por trás da fachada de cruzada contra o narcotráfico e, posteriormente, de luta contra o terrorismo internacional, oculta obscuros interesses metropolitanos e da oligarquia colombiana. Vamos explorar esses propósitos.O objetivo geopolítico fundamental dos EUA, depois da implosão do "socialismo real" europeu, não é outro que consolidar sua hegemonia unipolar. Deste propósito maior derivam as metas estratégicas do Plano Colômbia: a) Garantir o controle político-militar norte-americano no norte da América do Sul (enfraquecido após a retirada do Panamá da Base Howard, em 1999).b) Instalar encraves militares para apropriar-se dos recursos naturais, energéticos e bioenergéticos da Amazônia.c) Controlar o comércio sub-regional com os países asiáticos.d) Despovoar territórios por meio de operações de genocídio e etnocídio.e) Enfraquecer a gravitação geopolítica do Brasil.f) Evangelizar os latino-americanos no culto ao mercado e à democracia formal, entre outros.No terreno estritamente econômico, o Plano busca reforçar as colunas do capital financeiro, sustentando a produção e venda de armas, reforçando a indústria química e melhorando, para Wall Street, os lucros provenientes do tráfico internacional de drogas psicoativas naturais. Os benefícios do programa para os "senhores da guerra" norte-americanos tornaram-se evidentes quando uma parte significativa do dinheiro entregue inicialmente por Washington teve como destino a compra de helicópteros Blackhawks, que são fabricados somente nos EUA.Por outro lado, uma nota do New Herald, que coincidiu com a oficialização do Plano, infirmou que as fumigações dos cultivos de coca e papoula eram feitas com o Roundup, um agrotóxico produzido pela Monsanto. Depois de intensificados os bombardeios químicos, ficamos sabendo que o preço do quilo de cocaína em Nova York disparou, passando de 120 mil para 240 mil dólares, para felicidade dos "branqueadores" do primeiro mundo que, em última instância, são os maiores beneficiários desse colossal negócio, estimado atualmente em mais de 700 bilhões de dólares e equiparável ao do petróleo ou à fabricação e comércio de material bélico.Nos tempos da administração do republicano George W. Bush, o Plano Colômbia foi reformulado com o sarcástico nome de Iniciativa Regional Andina (IRA), com o evidente propósito de internacionalizar a guerra civil que flagela a irmã nação fronteiriça como corolário do assassinato do líder popular Jorge Eliécer Gaitán, em 1948; e, depois do 11 de setembro de 2001, seria incorporado à famigerada campanha mundial contra o terrorismo decidida pelos "falcões" do complexo industrial-militar norte-americano como meio para aprofundar um keynesianismo de guerra e "neutralizar"/eliminar os dissidentes da globalização corporativa (chamem-se líderes da oposição parlamentar, dirigentes sindicais, defensores dos direitos humanos, ecologistas, guerrilheiros, cristãos libertários, indígenas ou simplesmente excluídos pela acumulação por perda de posse institucionalizada pelo "capitalismo do Pentágono").Como todo fato histórico, o Plano Colômbia sustenta-se também em fatores endógenos, neste caso inerentes a esse país. Do que estamos falando?Resultado de uma evolução contrafeita e subordinada, a crise colombiana do café, nos anos 1970, derivou em uma constelação de problemas econômicos, sociais, políticos e institucionais cada vez mais agudos. Um trágico derivado da sua crise multidimensional foi que o país sul-americano se transformou, a partir da citada década, em um importante produtor e exportador de drogas para o vasto mercado ianque (um mercado de aproximadamente 60 milhões de viciados irrecuperáveis), fenômeno induzido pela abertura comercial instrumentada pelos governos conservadores e liberais colombianos seguindo as recomendações-imposições de entidades como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o BID, a CAF.A abertura colombiana para a importação de bens produzidos pelo poderoso e subsidiado "agrobusiness" norte-americano, ao mesmo tempo que provocou a ruína dos camponeses, forçou-os ao êxodo em direção às cidades ou a tentar sobreviver com cultivos não-tradicionais. Esta "reconversão" da agricultura colombiana resultou na constituição de uma matriz produtiva com umas 100 mil famílias estabelecidas em dezenas de milhares de hectares e abriu passagem para processos de industrialização e comercialização de maconha, coca e papoula, atividades que representam lucros para um amplo espectro social interno, que inclui desde partidos políticos da ala liberal/conservadora, legisladores, juízes, banqueiros e jornalistas, até paramilitares e chefes da droga de diverso perfil, fornecedores de armas, oficiais e tropas do Exército e da Polícia, pequenos produtores agrícolas, raspachines (pessoas que colhem a folha de coca) e "pericos". A guerrilha esquerdista das FARC, segundo declarações de seus comandantes, cobra tributos de camponeses, refinadores e narcotraficantes.Além de defender sua fatia no grande bolo do narcotráfico, cuja fração mais importante é retida e investida nas metrópoles, a oligarquia do norte encontrou no Plano Colômbia o melhor álibi para promover sua reforma agrária "às avessas", consistente em expulsar de seus assentamentos ancestrais camponeses e comunidades indígenas, apropriar-se de suas terras por meio de operações do Exército e de grupos paramilitares e, posteriormente, formar latifúndios para o cultivo de palma africana, soja e outras produções primárias congruentes com a velha/nova divisão internacional do trabalho promovida pelo capital transnacional a partir dos anos 1970, por meio da implantação de ditaduras fascistas no Cone Sul, como as de Augusto Pinochet, no Chile, e Rafael Videla, na Argentina.O enfraquecimento institucional e moral do Estado colombiano, que inclusive já fez com que perdesse o controle de aproximadamente um terço do seu território e da metade dos seus municípios, abre uma larga passagem para que os Estados Unidos assumam um virtual protetorado da nação sul-americana e para que, esgrimindo o mito da "sociedade sem drogas" ou a metáfora da "guerra infinita contra os terroristas" tenha criminalizado uma sociedade inteira em uma tentativa de legitimar guerras neocolonialistas em conivência com a União Européia.A amarga experiência colombiana não está circunscrita às suas fronteiras. Produto combinado da dominação externa e da espoliação interna, o PlanoColômbia/IRA/Plano Patriota, imposto com os TLCs, o IIRSA (Iniciativa de Integração da Infra-estrutura da América do Sul) e o Plano Mérida (o recém estreado "Plano Colômbia mexicano"), tem irradiado de modo progressivo seus sinistros instrumentos e conseqüências, especialmente para os países andinos.As recorrentes violações da soberania de países como a Venezuela e o Equador, protagonizadas por Álvaro Uribe, um ex-colaborador do "Chefe" Pablo Escobar, inscrevem-se no contexto histórico laconicamente descrito. * René Báez, economista equatoriano, é professor universitário, Prêmio Nacional de Economia e membro da "International Writers Association".
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores
Extraído de www.agenciacartamaior.com.br

Unasul: a integração possível

MONTEVIDÉU - Não é a ALBA, nem o MERCOSUL ampliado, nem a integração energética que a Venezuela vinha trabalhando. A UNASUL, promovida pelo Brasil, tem vantagens e desvantagens: entre as primeiras, potencializa a autonomia regional com respeito aos Estados Unidos; mas é um tipo de integração feita sob medida para as grandes empresas brasileiras.No dia 23 de maio, em Brasília, onze presidentes e um vice-presidente, representando os doze países da América do Sul, assinaram o Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL). O tempo dirá, mas tudo indica que se trata de um fato que fará história no longo e complexo processo de integração dos países da região e, muito especialmente, da afirmação de um projeto próprio que necessariamente toma distância de Washington. O processo em curso apresenta duas novidades com respeito aos anteriores. Uma delas é o nítido protagonismo do Brasil, que se transformou na locomotiva regional depois de estabelecer uma aliança estratégica com a Argentina. O resto dos países podem escolher seguir a corrente do país que representa a metade do PIB e da população regional e que é, junto com Rússia, China e Índia, um dos principais emergentes do mundo. Mas, além disso, é o único em condições de liderar um processo que vai colocar a região como um dos cinco ou seis pólos de poder global. A segunda é que a segurança regional substituiu a energia como mecanismo disparador da integração. Luiz Inácio Lula da Silva apresentou a proposta de criar um Conselho de Defesa Sul-Americano, do qual somente a Colômbia de Álvaro Uribe quis distância. Contudo, foi criado um grupo de trabalho que em 90 dias vai apresentar um relatório técnico com o objetivo de eliminar as divergências existentes. Lula mostrou-se confiante que Uribe vai aceitar a integração em matéria de segurança após sua viagem para Bogotá no próximo dia 20 de julho. Deste modo, a diplomacia do Itamaraty encurrala as expectativas do Pentágono de abrir uma frente militar, depois do ataque contra o acampamento das FARC em território equatoriano no dia 1º de março. Esta é apenas a fase final de uma estratégia que começou com manobras conjuntas entre Brasil e Argentina, cujas hipóteses de conflito consistiam na defesa dos recursos naturais diante de uma potência extracontinental. Em novembro de 2006, o coronel Oliva Neto, que dirige o Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência do Brasil, fez a proposta de criar forças armadas regionais como parte do projeto Brasil em Três Tempos, que busca transformar a nação em um “país desenvolvido” até 2022. Para horror de Washington, e das direitas vernáculas, a região contará, de agora em diante, com quatro poderosas instâncias de integração: a UNASUL, o Conselho de Defesa e, segundo o anúncio de Lula, “um banco central e uma moeda única”. Não está claro qual será o papel que terá o Banco do Sul, mas é provável que Brasília acabe optando por outro formato, alinhado com seu poderoso Banco Nacional de Desenvolvimento, o BNDES, que conta com mais fundos para investir na região do que o FMI e o próprio Banco Mundial. Sem dúvida, esta integração feita sob medida para o “Brasil potência” não é a que Hugo Chávez preferia, mas as dificuldades pelas quais atravessa o processo bolivariano e as inquietações que levanta na região, fortaleceram a opção brasileira. Que as grandes empresas do país (Petrobras, Embraer, Odebrecht, Camargo Correa, Itaú....) serão as grandes beneficiárias é algo de que ninguém duvida. Com certeza, esse é o preço a pagar por romper dependências mais onerosas. Analistas conservadores, como o argentino Rosendo Fraga, esperam que “a heterogeneidade dos doze países da região” (Nova Maioria, 20 de maio) seja a pedra no sapato do processo de integração. Washington tem as mesmas expectativas e, é claro, trabalha com afinco para isso. Chama a atenção, em vista das escassas perspectivas de futuro dos pequenos países em um mundo globalizado, que o único presidente que faltou ao encontro tenha sido Tabaré Vázquez. - Raúl Zibechi, jornalista uruguaio, é docente e pesquisador na Multiversidade Franciscana da América Latina e assessor de vários grupos sociais.
Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

domingo, 1 de junho de 2008

Principais conceitos anarquistas

Princípio da não-doutrinação
Este conceito anarquista, embora não constitua a didática primária à compreensão libertária, é digno de uma abordagem rápida.
Os anarquistas acreditam no desenvolvimento heterodoxo do pensamento e do ideário libertário como um todo, não idolatrando nem privilegiando qualquer escritor ou teórico desta vertente de estudos. George Woodcock descreve com aptidão esse posicionamento libertário:
“Toda a posição do anarquismo é completamente diferente de qualquer outro movimento socialista autoritário. Ela tolera variações e rejeita a idéia de gurus políticos ou religiosos. Não existe um profeta fundador a quem todos devam seguir. Os anarquistas respeitam seus mestres, mas não os reverenciam, e o que distingue qualquer boa compilação que pretenda representar o pensamento anarquista é a liberdade doutrinária com que os autores desenvolveram idéias próprias de forma original e desinibida.”[2]
Anarquismo não é doutrina, não é religião, portanto não reverencia nenhuma espécie de livros ou obras culturais, nem linhas metodológicas rígidas, o que o definiria infantilmente enquanto ciência constituída. As obras concernentes ao anarquismo são, no máximo, fontes de experiências delimitadas histórica e conjunturalmente, passíveis de infinitas adaptações e interpretações pessoais.
Em síntese, o anarquismo é convencionado entre os libertários como sendo a emergência de um sentimento puro, sob o qual cada adepto deve desenvolver dentro de si mesmo o seu próprio instrumental intelectual para legitimá-lo e, mais do que isso, potencializá-lo abstracional e concretamente[carece de fontes?].
Socialismo Libertário: a ótica anarquista
Os anarquistas auto-denominados socialistas libertários vêem qualquer governo como a manutenção do domínio de uma classe social sobre outra. Compartilham da crítica socialista ao sistema capitalista em que o Estado mantém a desigualdade social através da força, ao garantir a poucos a propriedade sobre os meios de produção, no entanto, estendem a crítica aos socialistas que advogam a permanência de um estado pós-revolucionário para garantia e organização da "nova sociedade". Tal estado, ainda que proletário, somente faria permanecer antigas estruturas de dominação de uma parcela da população sobre a outra, agora sob nova orientação ideológica.
Esta teoria clama por um sistema socialista em que a posse dos meios de produção sejam socializados e garantidos a todos os que trabalham. Num tal sistema, não haveria necessidade de autoridades e/ou governos uma vez que a administração da vida social, para a garantia plena da liberdade só poderia ser exercida por aqueles mesmos que a compõem e a tornam efetiva (seja na indústria, na agricultura, nas empresas, creches, escolas, etc.).
A sociedade seria gerida por associações democráticas, formadas por todos, e dividindo-se livremente (ou seja, com entrada e saída livre) em cooperativas e estas, em federações.
A origem da tradição socialista libertária está entre os séculos XVIII e XIX. Talvez o primeiro anarquista (embora não tenha usado o termo em nenhum momento) tenha sido William Godwin, inglês, que escreveu vários panfletos defendendo uma educação sem participação do Estado, observando que esta tornava as pessoas menos propensas a ver a liberdade que lhes era retirada. O primeiro a se auto-intitular anarquista e a defender claramente uma visão mais socialista, foi Joseph Proudhon, seguido por Bakunin, que levou e elaborou as idéias daquele à primeira Associação Internacional de Trabalhadores (AIT). Mais tarde, Kropotkin desenvolve a vertente comunista do anarquismo, a qual chegou a ser muito popular na primeira metade do século XX.
A revolução social
A revolução social consiste na quebra drástica, rápida e efetiva do Estado e de todas as estruturas – levadas aqui enquanto entes materiais e não-materiais – que o regiam ou a ele sustentavam, por meio da ação revolucionária. Este princípio é primordial na diferenciação da vertente de pensamentos libertária em relação a qualquer outra corrente ideária. É a diferença básica entre o Socialismo Libertário e o Socialismo Autoritário.
Sob a ótica do Marxismo, por exemplo, seria necessária a instrumentalização do Estado para a conquista planejada, detalhada e gradativa da Revolução, sendo instituída a Ditadura do Proletariado para o controle operário dos meios de produção até a eclosão do Comunismo. Já, sob o ideário anarquista, a Revolução deve ser imediata, para não permitir que os elementos revolucionários possam ser corrompidos pela realidade estatal. De acordo com os libertários, a Ditadura do Proletariado nada mais é do que uma ditadura "de fato", exercendo a mesma coerção, a mesma opressão e a mesma violência contra a sociedade. Especialmente por isso, para eles, a Revolução Social deve ascender o mais rápido possível à Sociedade Anarquista, ao Comunismo puro, para, também, através dos princípios da Defesa da Revolução, não permitir a ressurreição do Estado.
Por fim, por intermédio do processo de destruição completa do Estado, sobre todas as suas formas, torna-se plenamente tangível a Liberdade, podendo, o/a sujeito/a, renovar de forma efetiva os seus princípios e preceitos humanistas.

Humanismo
Nos meios anarquistas, de forma geral, rejeita-se a hipótese de que o governo, ou o Estado, sejam necessários ou mesmo inevitáveis para a sociedade humana. Os grupos humanos seriam naturalmente capazes de se auto-organizarem de forma igualitária e não-hierárquica, mediante os progressos originários nas mulheres e homens a partir da educação libertária. A presença de hierarquias baseadas na força, ao invés de contribuírem para a organização social, antes a corrompem, por inibirem essa capacidade inata de auto-organização e por dar origem à desigualdade.
Desta forma, a partir da conscientização, aceitação e internalização da sua essência humana - idéia suprimida anteriormente pelo Estado -, por parte da pessoa, emerge-se naturalmente de toda a sociedade humana o anseio pela ascensão da idéia-base de qualquer forma de vida real: a Liberdade.

Liberdade
A Liberdade é a base inconteste de qualquer pensamento, formulação ou ação anarquista, representando o elo sublime que conjuga de forma plena todos os anarquistas. Assim, entre os anarquistas, a Liberdade deixa apenas o plano abstracional (do pensamento) para ganhar uma funcionalidade prática, sendo o símbolo e a dinâmica do desenvolvimento humano real. Em outras palavras, o princípio básico para qualquer pensamento, ação ou sociedade ser definida como anarquista é que esteja imersa, tanto abstracionalmente (ideologicamente), quanto pragmaticamente (no âmbito das ações), no conceito de Liberdade.
Para a encarnação da Liberdade, no entanto, é necessária a erradicação completa de qualquer forma de autoridade.

Antiautoritarismo
O Antiautoritarismo consiste na repulsa e no combate total a qualquer tipo de hierarquia imposta ou a qualquer domínio de uma pessoa sobre a(s) outra(s), defendendo uma organização social baseada na igualdade e no valor supremo da liberdade. Tem como principais, mas não únicos, objetivos a supressão do Estado, da acumulação de riqueza própria do capitalismo (exceto os Anarco-capitalistas) e as hierarquias religiosas(exceto seguidores do Anarquismo cristão). O Anarquismo difere do Marxismo por rejeitar o uso instrumental do Estado para alcançar seus objetivos e por prever uma Revolução Social de caráter direto e incisivo, ao contrário da progressão sócio-política gradual - socialismo - rumo à derrubada do Estado - comunismo - proposta por Karl Marx.
De acordo com a corrente de pensamentos libertária, a supressão da autoridade é condicionada pela ação direta de cada indivíduo livre, prescindindo-se completamente de qualquer intermediário entre o seu objetivo, enquanto defensor da Liberdade, e a sua vonta
Ação direta
Os anarquistas afirmam que não se deve delegar a solução de problemas a terceiros, mas antes, atuar diretamente contra o problema em questão, ou, de forma mais resumida, "A luta não se delega aos heróis". Sendo assim, rejeitam meios indiretos de resolução de problemas sociais, como a mediação por políticos e/ou pelo Estado, em favor de meios mais diretos como o mutirão, a assembléia (ação direta que não envolve conflito), a greve, o boicote, a desobediência civil (ação direta que envolve conflito), e em situações críticas a sabotagem e outros meios destrutivos (ação direta violenta).
No entanto, a Ação Direta, por si só, não garante a manutenção e a perpetuação das condições humanas básicas, tanto em termos estruturais, quanto no aspecto intelectual, necessitando de uma extensão operacional ilimitada a fim de fazer da força humana global uma só energia coletiva. Decerto, somente a solidariedade e o mutualismo máximos podem promover essa harmonia social.

Apoio mútuo
Ver artigo principal: Apoio mútuo
Os anarquistas acreditam que todas as sociedades, quer sejam humanas ou animais, existem graças à vantagem que o princípio da solidariedade garante a cada indivíduo que as compõem. Este conceito foi exaustivamente exposto por Piotr Kropotkin, em sua famosa obra "O Apoio Mútuo". Da mesma forma, acreditam que a solidariedade é a principal defesa dos indivíduos contra o poder coercitivo do Estado e do Capital.
Mas, para que a solidariedade se torne uma virtude "de fato" é necessária a erradicação de qualquer fator de segregação ou discriminação humanas. Com esse objetivo, o internacionalismo se firma enquanto o princípio proeminente da integração sociolibertária.
Internacionalismo
Para os anarquistas, todo tipo de divisão da sociedade - em todos os apectos - que não possua uma funcionalidade plena no campo humano deve ser completamente descartada, seja pelos antagonismos infundados que ela gera, seja pela burocracia contraproducente que ela encarna na organização social, esterilizando-a. Logo, a idéia de "pátria" é negada pelos anarquistas.
Os libertários acreditam que as virtudes - bem como o exercer pleno delas - não devem possuir "fronteiras". Assim, acreditam que a natureza humana é a mesma em qualquer lugar do mundo, exigindo, independentemente do universo material ou cultural onde o ente humano esteja inserido , uma gama infinita de necessidades e cuidados. Em outras palavras: se a fragilidade do homem não tem fronteiras, por que estabelecer empecilhos ao seu auxílio?
Vale lembrar que o conceito libertário de internacionalismo se difere completamente do conceito que conhecemos - portanto, capitalista - de globalização. Globalização é a ampliação a nível mundial da difusão de produtos - ideológicos, culturais e materiais - de determinados segmentos capitalistas, visando à potencialização máxima da capacidade mercadológica dos agentes operantes - na maioria das vezes, as empresas e as grandes corporações -, sendo, para isso, desconsideradas parcial ou completamente todas as conseqüências humanas do processo, já que é a doutrina do "lucro máximo" que rege essas operações. Por outro lado, o internacionalismo, por se alijar completamente de todo o ideário capitalista, não possui nenhuma tenção lucrativa, capitalista, e não é permeado por estruturas privilegiadas de produção - como as indústrias capitalistas -, sendo regido pela solidariedade e mutualismo máximos.
Didaticamente, o internacionalismo pode ser definido como sendo a difusão global de "serviços" humanos, e a globalização como a difusão global de "hegemonias" mercadológicas.

Protesta

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MST

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Punks

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Síntese

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Ezln Sub-comandante Marcos

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Exército Zapatista de Libertação Nacional

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Bandeira das Farc´s

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Farc´s

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Guerrilheira das Farc´s

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Bandeira do Exército de Libertação Nacional

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Guerrilheiro do ELN

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Liberdade para Mumia Abu Jamal

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Igualdade de gêneros

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